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Terceiro Tempo

"Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola." - Nelson Rodrigues

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Viagem no tempo aos portugueses na MLS

09.10.21, Terceiro Tempo

A Major Soccer League está longe de ser uma das ligas mais competitivas no que diz respeito ao panorama mundial. Ainda assim, nos últimos anos é notório o crescimento do futebol neste continente americano havendo um enorme salto qualitativo em termos de qualidade comparativamente há alguns anos atrás. Tem havido um forte investimento em melhorar a liga, criar camadas jovens para potenciar jovens jogadores e temos visto vários jogadores a chegaram ao velho continente proveniente nos Estados Unidos da América ou do Canadá nos últimos par de anos. E em relação aos portugueses que jogam/jogaram na MLS? Quem foi o primeiro?

Abel Xavier no LA Galaxy. O primeiro português a disputar a Major Soccer League

Os pioneiros

          O primeiro português a pisar os terrenos na Major Soccer League foi Abel Xavier, em maio de 2007. Depois de uma carreira recheada de bons clubes (Benfica, Liverpool, Everton, Roma), o português rumou ao LA Galaxy no final da sua carreira para jogar numa equipa que contava com a estrela mediática David Beckham. A sua estadia no estado da Califórnia não foi a melhor tendo cumprido apenas um par de dezenas de jogos em dois anos pelo clube americano. Alguns desentendimentos com o treinador da altura, Ruud Gullit, também levaram à sua saída precoce ainda nem tinha terminado a época. Foi a última experiência no futebol para Abel Xavier mas foi ele que foi o pioneiro e que abriu portas a mais portugueses conseguirem chegar à MLS.

          Os próximos jogadores que se seguem não fizeram carreira em Portugal. Ou nasceram cá e emigraram muito cedo ou têm país portugueses, como é o caso de António Ribeiro, um jogador luso-canadense que se tornou o primeiro jogador português a disputar um jogo da Liga CONCACAF. Assinou pelo San Jose Earthquakes em 2009 mas sem grande sucesso tendo voltado ao Canadá pouquíssimo tempo depois para o Montreal (que na altura ainda não integrava a MLS).

          David Viana, desta vez um luso-francês, com passagens pelas camadas jovens do Atlético Madrid, decidiu, também ele, tentar a sua sorte nas "Américas", mas, uma vez mais, uma experiência falhada de um português. Cumpriu apenas dois jogos e sempre como suplente utilizado. s. Relegado para as reservas pouco depois, David Viana voltaria ao Velho Continente, onde representou os ingleses do Luton Town, e o Olhanense, até estabilizar no país de origem.

          Por último, para terminar aqui o tema de "os pioneiros", temos José Gonçalves, o primeiro jogador português (nascido em Lisboa mas desde os 10 anos na Suíça) a conseguir singrar na liga mais importante da América do Norte e que grandes saudades têm os adeptos do New England Revolution do defesa-central. Representava o Sion da Suíça, e surgiu a oportunidade de ser emprestado ao clube americano. A sua prestação foi tão boa na época de estreia que ainda teve mais três anos no New England Revolution, recheado de grandes exibições e conquistas individuais. Assumiu desde cedo a liderança do quarteto defensivo, e sagrou-se vice-campeão em 2014, ano em que foi eleito Defesa do Ano, reflexo de uma temporada fantástica. Deixou o Revolution no final de 2016, para uma aventura na Índia, vestindo a camisola dos NorthEast United.

José Gonçalves foi o primeiro português a ter um grande sucesso na Major Soccer LeagueJosé Gonçalves foi o primeiro português a ter um grande sucesso na Major Soccer League

Cooperações e cimentar posições

          Depois de termos falados de 4 jogadores que consideramos os pioneiros. A entrada na Major Soccer League passou a ser feita de forma mais regular com vários jogadores portugueses a estarem presentes. Algumas dessas entradas devem-se às cooperações que foram feitas no âmbito de troca de jogadores entre o Benfica e o Orlando City, bem como do Sporting com o New England Revolution.

          O Benfica estreou-se primeiro nesta parceria e enviou para o Orlando City, em 2014, dois jogadores que se destacaram nas equipas de juvenis dos encarnados, como foi o caso de Estrela e de Rafael Ramos (atualmente ao serviço do Santa Clara). Estrela apenas somou minutos nas reservas e em jogos da Taça dos EUA, ao passo que Rafael Ramos se manteve no clube até 2017, com alguma regularidade em termos de jogos. 

          Ainda corria o ano de 2014, e também o Benfica emprestou mais um jogador, desta vez Yannick Djaló. Sem espaço no clube da Luz, seguiu-se uma experiência ao serviço do San Jose Earthquakes, experiência essa que não correu da maneira desejada para o extremo português formado no Sporting. Com alguns problemas físicos à mistura foi titular em apenas 13 jogos em toda a época marcando 3 golos. A sua época de estreia não foi convincente e o clube americano decidiu não seguir para a sua contratação.

O luso-canadiano Steven Vitória teve um excelente ano ao serviço dos Philadelphia Union

          No ano seguinte, mais uma vez o Benfica volta a emprestar um jogador e desta vez é Steven Vitória. O defesa-central nascido no Canadá mas com larga experiência no futebol português e com época de grande nível (que valeram a transferência para o Benfica, embora sem singrar no clube) é emprestado ao Philadelphia Union. Onde faz uma época irrepreensível tendo sido sempre titular em todos os jogos que participou. Não ficaria no clube na temporada seguinte, mas esta experiência norte-americana acabaria por se revelar bastante recompensadora para Steven Vitória, por lhe ter aberto as portas da selecção canadiana, que desde então já representou em 24 ocasiões. Outro defesa que chegou a integrar os quadros da MLS foi Paulo Renato, um provável desconhecido para a maioria dos leitores. Natural dos Açores, Paulo Renato fez uma carreira praticamente a jogar pelo Campeonato de Portugal, ainda assim arriscou fazer um trial na pré-temporada do San Jose Earthquakes e... ficou no clube! Ganhou um contrato de apenas uma temporada, fez pouquíssimos jogos (foi contratado para ser uma espécie de quarta opção) mas ainda assim de realçar a sua tentativa de fazer um teste num clube da principal divisão dos EUA e conseguir preencher essa vaga!

          Para terminar esta vinda de jogadores emprestados, falamos de Sambinha. Este foi o jogador enviado pelo Sporting devido à parceria entre os leões e o New England Revolution. O jogador nascido em Cascais, era um claro destaque da equipa do Sporting B que na altura estava na Segunda Liga. Com 23 anos, é emprestado ao New England Revolution mas a sua influência não foi a mesma que tinha no Sporting B. O defesa que possui nacionalidade guineense e portuguesa contabilizou apenas uma partida completa (e mais uma apenas como suplente) nos Estados Unidos ao longo da temporada, tendo acabado por abandonar New England, em busca de mais minutos.

Triunfos lusitanos

          No último tópico deste texto vamos ainda falar de mais sete jogadores com a grande maioria a triunfar de forma clara na MLS. No ano de 2016, para além de Sambinha que já falamos momentos acima, chegaram ainda Nuno André Coelho (antigo jogador do FC Porto e Sporting CP) e João Meira, jogador que se notabilizou ao serviço do Belenenses.

          Nuno André Coelho aceitou o desafio de abandonar a Turquia e assinar pelo Sporting Kansas. Apesar de ter sido uma época interessante no ponto de vista individual visto que sagrou-se o central da equipa com mais minutos somados em todas as competições na época. A equipa não conquistou qualquer título nesse ano e André Coelho decidiu retomar a terras lusas e jogar pelo Desportivo de Chaves. Ainda assim, foi um jogador que mostrou um belo desempenho na MLS. João Meira, outro defesa-central, é um jogador que teve um impacto superior ao de Nuno André Coelho e é, certamente, o defesa-central da lista, a par de José Gonçalves, aquele que teve um maior protagonismo na MLS.

          Como referido, João Meira estava a notabilizar-se no Belenenses mas decidiu experimentar outro desafio na sua carreira e aos 28 anos rumou à América do Norte para representar o Chicago Fire por duas temporadas. Titular em grande maioria dos jogos, o defesa português cumpriu 60 jogos com a camisola do Chicago Fire assumindo um dos principais bastiões da equipa naqueles dois anos. Tinha a oportunidade de representar o clube durante mais um temporada, mas recusou a proposta, queria outro desafio na sua carreira e experimentou o Valerenga, da Noruega. Atualmente, João Meira tem contrato com o Leixões, clube da região do Porto que milita na segunda divisão.

          No ano de 2017 chegou a vez de João Pedro, médio formado no Vitória de Guimarães, aterrou num dos clubes mais emblemáticos daquele país: o LA Galaxy, clube que abriu as portas aos portugueses quando contratou Abel Xavier. Contudo, teve a infelicidade de aterrar numa das épocas mais desastrosas de sempre para o emblema californiano, que terminaria o ano na última posição da Conferência Oeste. No meio de toda a instabilidade, João Pedro foi o quarto jogador mais utilizado do plantel, assumindo vários papéis dentro de campo, mas nunca encontrando a sua voz. Seguiu-se meio ano de 2018 pontuado com presenças na equipa de reservas, e um empréstimo aos gregos do Apollon Smyrnis, a cumprir até ao final da época europeia. Atualmente está ao serviço do Tondela.

Gerson é, a par do ex-Braga Pedro Santos, os jogadores que mais brilharam na MLS.

          Sorte distinta teve Gerson, mais um português a trocar o Belenenses por um clube americano e, uma vez mais, o Kansas City, que tinham como claro objetivo subir um patamar no clube e tornarem-se um clube mais competitivo no panorama americano. Nas duas temporadas que disputou, contribuiu activamente para a conquista da Taça dos EUA (2017), e ajudou a garantir de forma consecutiva a presença nos Playoffs da MLS. Na última época, com menos preponderância em relação às primeiras épocas que teve no Sporting Kansas, acabou por experimentar novos voos e rumou à Coreia. De realçar ainda, o facto de Gerson ter sido o primeiro português a assinar um contrato de Designated Player, que o coloca acima do tecto salarial do plantel.

          Se Gerson brilhou, o que dizer de Pedro Santos, mais um jogador que também chegou, em 2017, como Designated Player ao Columbus Crew. O ex-bracarense demorou a adaptar-se a uma nova realidade e as duas primeiras temporadas de Pedro Santos foram complicadas com pouco brilhantismo individual. Porém, desde 2019 até agora é um dos principais jogadores da MLS com vários golos e assistências ao longo das três temporadas. Tem assumido, juntamente com Zardes, um papel preponderante na equipa do Columbus Crew, inclusive marcada com títulos: conquista da Major Soccer League em 2020 e ainda uma CONCACAF Campeones Cup, que colocou frente a frente o vencedor da MLS (Columbus Crew) diante do vencedor da Liga Mexicana (Cruz Azul), tornando-se também o 1º português a conquistar tal título.

          De seguida falamos de André Horta, atual jogador do Sp. Braga, que também experimentou o campeonato americano em 2018. Chegou sobre forte expetativa até porque foi alvo de um grande investimento do Los Angeles FC, que desembolsaram 6 milhões de euros para garantir o português, que também chegou como Designated Player. O clube, fundado apenas em 2014, tinha fortes expetativas para o campeonato desse ano mas André Horta não conseguiu, de todo, corresponder às expetativas. Ficando, desde logo, marcado por uma estreia desastrosa com a camisola dos Los Angeles em que ofereceu um golo de bandeja à equipa adversária. Ainda fazia mais 4 jogos na temporada seguinte, mas sem qualquer influência na equipa, retorna a Portugal novamente para o Braga, depois de não conseguir triunfar na MLS.

Nani foi o último português a embarcar na América para jogar no Orlando City. Quem será o próximo?

          Por último, falamos de Nani, o luso-caboverdiano é o jogador com maior currículo de todos os português que já atuaram na MLS. Vencedor de uma Liga dos Campeões e Campeão Europeu por Portugal, Nani decidiu aventurar-se pelo continente norte americano quando está já perto do final da sua carreira. Chegou há três anos a Orlando, proveniente do Sporting, onde só teve 6 meses.

          É um dos principais ídolos da torcida de Orlando após a saída do maestro Kaká do clube. Tem sido influente em toda a manobra da equipa e não é por acaso que desde que chegou à MLS, tenha perto de 50 contribuições para golo (golos + assistências) em apenas 80 jogos. Estes números demonstram bem a preponderância que Luís Nani tem na equipa de Orlando que, apesar de ainda não ter conquistado qualquer título, vai desfrutando de ver Nani em campo a marcar grandes golos. Apesar de tudo, na última temporada viu o seu Orlando chegar às meias-finais caindo aos pés do New England Revolution.

O Draft

          Sim, ainda falta falar de um jogador mas decidiu-se criar um tópico à parte para ele, isto porque chegou proveniente do Draft (algo que já acontece na NBA). Com o trabalho crescente de diversas empresas a colocarem jogador com bolsas-de-estudo nas principais faculdades da América do Norte, têm surgido surpresas nos drafts mais recentes. Algo que aconteceu com João Moutinho, o defesa-direito, com passado pelas camadas jovens do Sporting, foi selecionado em 2018 pelos Los Angeles FC e logo como primeira escolha, o que trazia uma pressão acrescida sobre si. Nessa mesma época ainda participou em 14 jogos na MLS, sendo que 10 foram na condição de titular. Uma boa época de estreia para alguém acabado de sair do futebol de faculdade para tentar triunfar na MLS. Não foi suficiente para convencer na totalidade e rumou ao Orlando City onde permanece até aos dias de hoje. Sendo companheiro de Luís Nani, João Moutinho quem, a cada dia que passa, cimentando o seu lugar no onze do Orlando. Com apenas 23 anos e com a evolução natural que tem tido, João Moutinho poderá ser um dos principais destaques da MLS num futuro próximo.

E quem é que se seguirá? Desde a entrada de Abel Xavier há 13 anos que nunca mais pararam a ida de portugueses para o continente americano. Com o crescimento do soccer em terras onde a NBA é rei, tem aliciado cada vez mais jogadores a ingressarem na MLS que tem-se tornado cada vez mais competitiva a cada ano.

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