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Terceiro Tempo

"Football, bloody hell!" – Sir Alex Ferguson (1999, após a conquista da Champions League)

Com o arranque de uma nova temporada, o Benfica apresenta-se com um meio-campo renovado, fruto de mudanças significativas no plantel. A saída de alguns jogadores e a chegada de novos nomes, como Enzo Barrenechea e Richard Ríos, obriga a repensar a forma como a equipa joga — e, acima de tudo, como pode evoluir. Olhando para a época passada, em que Florentino Luís e Orkun Kökçü assumiram grande parte do protagonismo no centro do terreno, importa perceber o que muda no comportamento da equipa com este novo duplo-pivot.

Richard Ríos chegou ao Benfica e assumiu logo um papel importante na equipa e no balneário (Créditos: Yahoo)

Florentino e Kokçu: equilíbrios diferentes, com bola e sem bola

Na época 2023/24, Roger Schmidt optou durante largos períodos por uma dupla composta por Florentino e Kokçu. Florentino, um “6” clássico, deu sempre garantias a nível defensivo: agressivo na recuperação, posicionalmente disciplinado e com grande capacidade de varrer os espaços entre linhas. Era, muitas vezes, o tampão à frente da defesa, permitindo que os laterais subissem com confiança e que os centrais tivessem cobertura.

Kökçü, por outro lado, foi um “8” com características híbridas. Vindo do Feyenoord, prometia criatividade, chegada à área e boa meia-distância. No entanto, demorou a adaptar-se ao modelo de Schmidt e à exigência tática da Liga portuguesa. Apesar de alguns jogos de bom nível, faltou-lhe consistência. Ainda assim, a sua presença garantia um meio-campo mais ofensivo, com capacidade para acelerar o jogo com passes verticais e transportar bola em zonas interiores.

O problema? Muitas vezes a dupla parecia desequilibrada. Florentino ficava demasiado sozinho em momentos de transição defensiva e Kokçu não conseguia compensar. A ligação ao ataque, por sua vez, ficava dependente de momentos individuais de João Mário, Rafa ou Di María, com pouca fluidez entre setores.

Na época seguinte, com a demissão de Roger Schmidt ainda no início do campeonato, Bruno Lage assumiu o leme da equipa e manteve a estrutura da equipa, jogando na maioria das vezes tal como Schmidt o fazia no meio campo, com Florentino Luís e Kokçu. 

Nestes dois anos e com ambos os treinadores, existe um fator comum: Kokçu teve claros problemas. Com Schmidt uma entrevista 'explosiva' para um orgão de comunicação neerlandês onde falava que não tinha a liberdade posicional que gostaria e, mais tarde, com Bruno Lage, em pleno Mundial de Clubes, teve uma atitude muito questionável após ser substituído por Renato Sanches.

Enzo dá ao Benfica uma construção com maior critério e assertividade (Créditos: zerozero)

A chegada de Enzo Barrenechea: físico, presença e sentido coletivo

A contratação de Enzo Barrenechea ao Aston Villa (onde esteve emprestado ao Valencia) trouxe uma nuance diferente ao meio-campo encarnado. O argentino é um médio de grandes dimensões físicas (1,87 m), mas que alia essa presença a um bom sentido posicional e inteligência no passe curto. Não é tão reativo quanto Florentino, mas oferece mais serenidade na construção.

Barrenechea posiciona-se bem entre os centrais na fase de saída e tem qualidade no primeiro passe. Dá menos mobilidade, é verdade, mas oferece uma base mais sólida para controlar ritmos. É um “6” mais construtor do que destruidor, e isso muda radicalmente a forma como o Benfica pode atacar: com mais paciência, mais controlo e menos dependência da transição.

Richard Ríos: intensidade, verticalidade e surpresa

Richard Ríos é outro perfil totalmente distinto. O colombiano, vindo do Palmeiras, é um médio mais vertical, com chegada à área, remate e uma capacidade notável para conduzir em progressão. Oferece ao Benfica algo que faltou com Kokçu: intensidade contínua e mobilidade ofensiva com critério. Tem também um bom timing de pressão, o que se encaixa bem no modelo de Schmidt, que privilegia a recuperação imediata após perda.

Se Kökçü era um médio criativo mas por vezes desligado do jogo, Ríos é um motor contínuo. Atua entre linhas, aparece em zonas de finalização e, sobretudo, sabe quando acelerar. Pode até ser utilizado como “box-to-box” puro, algo que o Benfica não teve de forma clara na época anterior.

O que muda com esta nova dupla?

Menos dependência da destruição pura: Com Florentino, o Benfica jogava com um recuperador de bolas puro. Barrenechea é mais posicional e contribui com bola. O pressing continua a ser importante, mas o foco passa para o controlo e não apenas para a reação.

Mais presença física e altura: Tanto Enzo Barrenechea como Ríos oferecem estatura e capacidade de choque — algo que faltou em vários momentos no ano passado, especialmente em jogos mais físicos ou com bolas paradas

Maior versatilidade ofensiva: Ríos tem mais golo e mais chegada do que qualquer médio da época passada. Pode libertar os alas, dar apoio ao ponta-de-lança e criar desequilíbrios com bola. Permite ao Benfica ter um meio-campo mais dinâmico e menos previsível.

Menos experiência no sistema: É um ponto importante. Florentino já conhecia perfeitamente o modelo de Bruno Lage. Kokçu também acabou por se adaptar. Barrenechea e Ríos são apostas novas e ainda estão a entrar nas dinâmicas. Haverá inevitavelmente um período de crescimento e algum risco inicial.

Impacto no modelo de jogo global: A maior capacidade de construção de Barrenechea pode permitir ao Benfica jogar com saídas mais curtas e menos bolas longas dos centrais. Já a presença de Ríos aproxima o meio-campo do ataque, o que pode beneficiar jogadores como Pavlidis, Ivanovic e os próprios extremos.

Nestes primeiros jogos, o Benfica apresenta uma melhoria significativamente na primeira construção (Créditos: NurPhoto)

Mudança de paradigma ou mera adaptação?

A mudança de Florentino/Kökçü para Barrenechea/Ríos não é apenas uma troca de peças — é uma redefinição do coração da equipa. O Benfica poderá ganhar em capacidade ofensiva e presença física, mas perder alguma segurança defensiva e rotinas já consolidadas. Tudo dependerá da forma como Bruno Lage consiga integrar estas novas peças e da velocidade com que os jogadores assimilam o modelo.

O que é certo é que o Benfica 2025/26 será diferente no meio-campo — resta saber se será mais eficaz. Os sinais são promissores, a vitória clara diante do Nice e, acima de tudo, o controlo que a dupla sul-americana assegurou no meio-campo, faz crer que tanto Ríos como Enzo foram escolhas acertadas.

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