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Terceiro Tempo

"Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola." - Nelson Rodrigues

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Mohamed Kallon, o menino da Serra Leoa que se tornou o melhor de sempre do seu país

27.01.19, Terceiro Tempo

O nome de Mohamed Kallon pode passar despercebido para a maioria dos adeptos de futebol, isto porque não teve um grande mediatismo à sua volta e não conseguiu manter o seu nível futebolístico quando chegou a patamares mais elevados ainda para mais com uma carreira tão instável jogando em 22 anos por 16 clubes diferentes.

 

 

Kallon, nasceu a 6 de outubro de 1979 em Kenema, na Serra Leoa. Kallon era apenas um menino num país que atravessava uma grave crise e estava em guerra nessa altura. Começou a sua carreira em 1994, com apenas 15 anos, como jogador/militar e foi desde muito cedo que se percebeu que a carreira de Kallon nunca iria ser estável. Um ano abandona o seu país em guerra há busca de novas oportunidades, oportunidades essas que surgiram no Libano, mas, uma vez mais, no ano a seguir abandonou o clube e surgiu a oportunidade de jogar no futebol europeu, mais concretamente no Spanga IS, da Suécia. É incrível porque isto tudo aconteceu apenas em 2 anos,  dos 15 aos 16 anos, 3 clubes diferentes e ainda conseguiu pelo meio disputar uma CAN e inclusive marcou um golo apenas com 16 anos.

Não chegou a jogar pelo clube sueco e rapidamente chegou ao Internazionale, de Itália, em 1995, Kallon esteve ligado a três clubes, algo incrível. 16 anos e já com quatro clubes no "currículo". O facto de ser bastante jovem e a Liga Italiana ter regras duras para extra-comunitários (entenda-se jogadores que vêm de países foram da União Europeia), Kallon, por ser ainda muito jovem, não foi inscrito e teve de esperar 5 anos, sim, 5 anos até ter a sua primeira oportunidade no Inter. Não é difícil de adivinhar o que aconteceu nesses 5 anos, não é certo? Kallon representou 5 clubes diferentes, todos em condição de emprestado pelos Nerrazuri, sendo emprestado ao Lugano, da Suíça, Bolonha, Génova e Cagliari, estes três clubes todos eles são italianos.

Continuando sem espaço no Inter, apesar de prestações razoáveis nos clubes a que esteve emprestado, Kallon acabaria por ser vendido ao Reggina na época de 1999-2000, com apenas 20 anos, acabaria por realizar uma excelente temporada com 11 golos marcados em 30 jogos, o que valeu uma transferência em co-propriedade para o Vicenza, da primeira divisão italiana. Mais uma vez, as prestações regulares que foi tendo ao longo do clube, valeram com que o Inter "repesca-se" o jogador por uma quantia de cerca de 15 milhões de euros.

E estava destinada a ser uma passagem diferente do que aquela que teve apesar da forte concorrência que tinha na altura, com Ronaldo, Recoba, Vieira ou Hakan Sukur. Era muito difícil para Kallon conseguir ter minutos com jogadores deste calibre. Porém, com a grave lesão que o Fenómeno sofreu no joelho e com Recoba, longe dos relvados por algum tempo também devido a lesão, a época de 2001-2002, levou Kallon a ser titular e a participar em 29 jogos na Serie A marcando por 9 vezes, sendo o segundo melhor marcador da equipa apenas atrás de Christian Vieiri.

Com uma temporada de bom nível, a segunda temporada na sua segunda passagem pelo Inter já não teve a mesma felicidade participando apenas em 9 jogos na Serie A marcando por 5 vezes. Porém, a temporada seguinte, a de 2003-2004 tinha tudo para ser uma temporada onde Kallon teria o maior número de minutos da sua carreira. Essa temporada, Kallon teve um duro revês. Com 7 jogos já disputados naquela temporada até finais de setembro, o jogador acusa positivo numa substância chamada nandrolone e acabou por ser banido durante 8 meses, falhando toda a temporada.

Sem espaço no clube, muito devido ao surgimento de Adriano Imperador e de uma "pequena estrela" de seu nome Obafemi Martins, o Internazionale vende Kallon ao Mónaco por apenas 5 milhões de euros. E é na capital monegasca que, apesar de não ter sido muito feliz, acabaria ser o clube que mais jogos fez numa só temporada, foram 43 jogos e 15 golos marcados, repetindo a marca de golos que já tinha obtido numa das suas épocas jogando pelo Inter.

É a partir de 2005-2006 que a carreira de Kallon tem o seu declínio apenas com 24 anos. Acaba por ser emprestado para um clube da Árabia Saudita, na temporada seguinte não se consegue impor no Mónaco e volta a ser emprestado, desta vez ao AEK, da Grécia, mas também sem grande fulgor. Fechado o seu contrato, tenta mais uma vez um país menos mediático, o Emirados Árabes Unidos mas com apenas 4 jogos realizados e 1 golo foram motivo para ver o seu contrato não renovado pelo clube.

 

Em 2009, com apenas 30 anos, Kallon decide regressar ao seu país, à sua casa para representar o... Kallon FC. E é aqui que a história começa a ser interessante. Quando corria o ano de 2002, ainda no Inter de Milão, Kallon teve a ideia de comprar um clube da Serra Leoa custou-lhe da altura 30 mil dólares para comprar o clube da primeira divisão do seu país natal, clube chamado de Sierra Fisheries, e a primeira medida que tomou foi... mudar o nome do clube para Kallon FC, em 2006 o clube Kallon FC ganhou a Taça do seu país, bem como a Liga, qualificando-se para a Liga dos Campeões Africana, os dois primeiros títulos após a mudança do nome do clube. Portanto, em 2009, o jogador representa, pela primeira vez, o clube de qual é dono mas as coisas não correram muito bem.

A minha volta é apenas temporária. Vou estar aqui durante 3 meses mas vai ser importante para a nossa liga da Serra Leoa. Sinto que a minha presença aqui vai atrair mais pessoas do nosso país à nossa Liga e vai ajudar a crescer o nosso futebol.

 

Apesar das bonitas palavras e um pouco arrogantes até que acabaram, como já referi, por não correr como esperado. Em 2010, Kallon "dispara" em todas as direcções e abre uma disputa pública com a Federação da Serra Leoa, afirmando que apenas foi afastado da sua selecção por motivos políticos. Com todo este aparato e com 11 jogos feitos pelo "seu" clube, Kallon afasta-se e ruma ao futebol chinês durante 1 ano, o ano a seguir, em 2011, ainda assina por um clube indiano, mas acaba por não ter qualquer jogo oficial realizado.

No ano de 2012, Kallon regressa, pela segunda vez, ao seu país natal para representar, claro está, o FC Kallon mas apenas só há registo de um jogo 2012 até 2016 (um jogo em 2012, a contar para a qualificação do Kallon para a Liga dos Campeões Africanas em que Kallon jogou e marcou o golo decisivo). Kallon, em 2012, regressou com um claro objectivo: tentar ser presidente da federação do seu país, mas foi impedido de ir a votos (ele e mais outros dois candidatos) – esta decisão motivou mesmo uma greve de grande parte das equipas do principal campeonato do país. 

Em 2014, devido à epidemia da Ebola, a Liga é parada por tempo indefinido até se ter novamente toda as condições para se disputar. Em 2016 e com graves afirmações sobre corrupção na federação e sem qualquer estimativa para a liga recomeçar, 11 clubes da Serra Leoa reuném-se e dão eles início a uma nova Liga mas... apenas durou 9 jogos. Com o Kallon FC, por intermédio de Mohamed Kallon, a ser um dos clubes que abandonaria a liga.

A história de Kallon realmente dava um filme, saiu de "casa" bem cedo e aventurou-se por diversos países até chegar ao estrelato. Infelizmente, esse estrelato durou apenas um ano mas que serviu para Kallon "amelhar" dinheiro suficiente para ajudar as pessoas do seu país. Não é só pelo seu futebol, e pelo mediatismo que teve, que se torna o melhor jogador da história do seu país, é também pelas acções que teve e continua a ter em prol da "pobre" Serra Leoa. Serra Leoa que nunca abandonou.

Veremos como será o futuro de Kallon à frente do seu clube isto porque atualmente o jogador encontra-se a treinar, claro está, as camadas jovens da Serra Leoa. Está a tirar o seu curso de treinador e poderemos ver em breve, Mohamed Kallon a chegar ao futebol europeu.