Flat Earth FC, o primeiro clube do mundo que acredita que a terra é plana
Em 1969 foi criado, em Espanha, na região comunitária de Madrid, o clube CDC Comercial que se tornou federado apenas em 1983 sendo uma espécie de equipa de reservas de um outro clube da cidade, o RDC Carabanchel. Sem ter grande protagonismo, já no ano de 2016, o clube é reformulado e vê o seu nome trocado para Móstoles Balompié. Esta reformulação valeu, nos primeiros três anos, duas subidas de divisão estando o clube na Tercera Division. Em 2019, o clube sofre nova reformulação, um novo presidente convicto que a terra é plana e renomeia o nome do clube para Flat Earth FC.

Quem diria que em pleno século XXI ainda existem dúvidas que a terra não é "redonda"? Foram várias as celebridades que se fizeram ouvir sobre esta questão, desde o mundo do desporto, à música, etc. Há gente que acredita nisto. E há gente que acredita que a Terra é plana, um formato em que o Ártico é o centro e a Antártica forma uma parede de gelo em redor do planeta. Chamam-se terraplanistas e, à falta de estimativas credíveis, não parecem ser assim tão poucos, a julgar pelo que se vê nas redes sociais.
A pessoa que falamos hoje é de Javier Poves. Poves nasceu em Madrid, em 1986 e desde então sempre praticou futebol, muito por influência do seu pai. Estava decidido a ser defesa, passou pelas formações do Atlético de Madrid e do Rayo Vallecano. Sem oportunidades dos clubes de primeira divisão espanhola, o defesa andou por clubes de menor expressão do seu país até se estabilizar ao serviço do Sporting de Gijón começando o seu percurso da equipa B em 2008, tinha na altura 22 anos. Fez mais de 60 jogos em dois anos na equipa B do Gijón e era visto pelos dirigentes como um jogador que poderia dar o salto para a primeira equipa e isso aconteceu, na temporada de 2010/11, Javi Poves teve a oportunidade de se estrear na La Liga com a camisola do Sporting de Gijon frente ao Hércules, no último jogo da temporada que terminou empatado.
Era a prova que os dirigentes do clube das Astúrias contavam com ele. O problema é que Javi Poves era um chicho diferente dos demais. O seu treinador no Gijón, Manolo Preciado tinha admitido que Poves «é bom rapaz mas tem uma grande pancada». Isto porque durante a sua estadia no Gijón sempre foi conhecido por recusar usar uma conta bancária e devolveu um carro que o clube tinha oferecido a todos os jogadores do plantel principal. Um mês após a estreia na La Liga, a principal competição de Espanha, Javi Poves anuncia a sua retirada dos relvados aos 24 anos dizendo que a sua família não viu com bons olhos a sua retirada «para o meu pai foi difícil, porque gosta muito de futebol e sacrificou-se muito para andar comigo de campo em campo. A minha mãe e a minha irmã choraram, a minha avó pede-me para ficar».
O verdadeiro motivo para a ter terminado a carreira? A explicação do próprio jogador:
Quanto mais conheces o futebol, mais te dás conta de que tudo é dinheiro, de que está podre, e isso tira-te o entusiasmo. Não quero viver prostituído, como 99% das pessoas. Se não posso ter uma vida limpa em Espanha, tê-la-ei na Birmânia ou onde for!
Javi Poves, no momento da sua retirada dos relvados

O plano do jogador? Viajar pelo mundo. E desligar-se completamente do mundo do futebol. Os três anos seguintes foram de loucura, o jogador passou por mais de 30 países conhecendo diversas culturas, dormindo muitas vezes ao relento e até apanhando algumas doenças, inclusive a malária numa viagem que fez ao Senegal. Depois das muitas viagens realizadas, Javi Poves regressa à sua Espanha e à procura de estabilidade, isto porque a mulher engravidou e o jogador tinha o objetivo de abrir um café e voltar ao relvados. Sem antes dar uma declaração sentida no seu regresso:
Foi a melhor decisão que tomei na minha vida. Estive em alguns dos países mais pobres, conheci a crueza da realidade e tornei-me mais humano. Curei-me da malária sem medicação e também da estupidez em que vivemos instalados. O dinheiro que ganhava na Liga era corrupto. O mundo do futebol idiotiza-te. Sempre gostei do futebol como jogo. Só odeio aquilo que o rodeia. Dá nojo ver tanta corrupção. A FIFA deixa que morra gente na construção de estádios no Qatar. Quando estive no Brasil fiquei impressionado, nunca tinha visto tamanha desigualdade
Javi Poves, no regresso a Espanha
No ano de 2014, com o jogador de regresso a Espanha, resolve voltar ao relvados e o clube que abriu as portas ao jogador foi o San Sebastián Reyes, da terceira divisão. Javi largou o combustível, deslocava-se para os treinos do clube de bicicleta e recordando que o futebol da terceira divisão era «o futebol em estado mais puro. Que faz recordar a infância». Ficaria duas temporadas no clube até se transferir para o clube que faz eco a esta nossa publicação: o Móstoles Balompié. Foi ao serviço do Móstoles que Javi teve mais uma das suas "pancadas" e resolveu tornar-se presidente do clube e reformular por completo a identidade do Móstoles Balompié: mudou as cores do clube, o estádio e nome do clube para, Flat Earth FC que, em belo português significa Terra Plana FC.

O jogador é um acérrimo defensor da teoria que a terra é plana: «Somos um clube profissional de futebol que disputa a Tercera Division de Espanha. Este clube foi criado com o objetivo de unir a voz de todos os terra planistas que estão à procura de respostas. Todos os clubes estão ligados a uma nação e a uma cidade. Mas o Flat Earth Football Club, é o primeiro clube onde os seus seguidores estão unidos através de algo mais importante, uma ideia», afirmou Javi na apresentação do novo clube.
Numa entrevista mais séria, ao jornal espanhol AS, o antigo jogador e agora presidente diz mesmo que a ideia é passar a mensagem que a terra é plana e usa o futebol como desculpa para isso: «A teoria de que a Terra é plana já domino há anos. Expliquei-a no YouTube. Considero uma prioridade da minha vida, saber a verdadeira forma da Terra [...] o futebol é, única e exclusivamente, uma ferramenta para transmitir uma mensagem. O futebol é a desculpa».
O clube tem vindo a ampliar a sua base de adeptos, enquanto que a direção espalha a palavra da inusitada teoria. A cada fim-de-semana o Flat Earth FC procura conseguir uma vitória contra uma equipa heliocêntrica e mundana. Tendo inclusive ganho o último jogo, no dia 26 de janeiro, por 2-1 contra o Pozuelo. Neste momento, o clube está literalmente a meio da tabela (décimo classificado num total de vinte equipas).
Mesmo que o desejo de Javi Poves seja apenas passar uma ideia e difundi-la pelo mundo através do desporto mais popular do mundo, o que é certo é pouco a pouco o clube parece ter bases para se sustentar e quem sabe, daqui a alguns anos, estar nos principais escalões do futebol espanhol. É algo que Poves sonha: «derrotar o Real Madrid em pleno Bernabéu seria espetacular».