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Terceiro Tempo

"Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola." - Nelson Rodrigues

Terceiro Tempo

"Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola." - Nelson Rodrigues

Fernando Redondo, o meu primeiro ídolo do futebol

23.05.20, Terceiro Tempo

Será impossível começar este novo quadro chamado Relembrando Jogadores sem recordar de um dos meus principais ídolos. Dotado tecnicamente e taticamente, Fernando Redondo chegou a uma forma estratosférica não se tornando o melhor de sempre na sua posição devido às graves lesões que o assolaram ao longo da sua carreira. Não é por acaso que se tornou El Principe, pela forma carinhosa com que tratava da bola, foi um jogador fora-de-série e que esmiuçaremos um pouco da sua história aqui no Relembrando Jogadores.

AUGUSTUS 🟥 on Twitter: "Fernando Redondo is arguably top 10 ...

Importa primeiro contar antes do futebol. Redondo nasceu em 1969 em Adrogué pertencente à capital, Buenos Aires. Ao contrário de muitos dos seus compatriotas que brilharam no futebol europeu, Redondo foi criado num bairro nobre, estudioso e com boa educação por parte dos seus pais. Dando sempre principal destaque à escola e só depois ao futebol, apesar de o seu grande sonho ser puder tornar-se futebolista.

Começou a das os primeiros toques na bola no futsal mas rapidamente passou para o futebol de campo com apenas 10 anos de idade e profissionaliza-se em 1985 ao serviço do mítico clube Argentino Juniors, que tem como principal lenda do clube, nada mais, nada menos que Diego Armando Maradona. Sempre foi hincha do Independiente e tinha como principal ídolo no futebol da altura Claudio Marangoni, médio que desempenhava funções parecidas à de Redondo.

Na equipa argentina, viram-se os primeiros passos de Redondo: técnico, elegante, protegia a bola como poucos, tinha um exímio toque de bola, eficiente na marcação e na construção de jogadas, jogava com muita classe além de ter um grande espírito de liderança, mesmo com a sua juventude.

O canhoto argentino fica por lá até 1990, com 24 anos, com maturidade e experiência adquiridas pronto para dar o salto para o futebol europeu. Haviam muitos interessados, mas quem conseguiu garantir os direitos económicos do jogador foi o Tenerife que nos dias de hoje disputa a segunda divisão espanhola. Depois de uma trapalhada feita pela direção do Argentino Juniors que não conseguiu renovar contrato com Redondo, o médio defensivo rumou a Espanha a custo zero. Uma verdadeira pechincha.

Neste ano de 1990, era ano de campeonato de mundo e com Redondo no topo da sua forma física foi chamado para representar a seleção albiceleste no mundial na Itália. Mas Redondo rejeitou. Quem é que rejeita representar o seu país na competição mais importante do desporto? Pois bem, Redondo deverá ser um dos poucos casos onde isso aconteceu mas por uma razão bastante válida: Negou a Albiceleste na Copa de 1990 por achar mais importante completar os seus estudos. Porém existe uma outra versão que admite que foi uma desculpa porque Redondo não gostava do estilo demasiado defensivo da equipa.

Pois bem, a Argentina nesse Mundial defendia o título conquistado em 1986. Deu uma boa resposta perdendo apenas na final diante da poderosa Alemanha por uma bola a zero.

Redondo chega às Canárias para representar o modesto Tenerife que até então apenas tinha participado por duas vezes na principal liga do futebol espanhol. Azkargorta trouxe-o para o Tenerife, onde fez quatro temporadas brilhantes. O contingente argentino foi aumentando em Tenerife, se Redondo abriu as portas, pouco tempo depois chegariam Gerardo Martino, antigo treinador do Barcelona, Dertycia, Ezequiel Castillo, Juan Antonio Pizzi e muitos outros compatriotas que juntos deliciaram as bancadas qualificando a equipa para a Taça UEFA. Apesar de algumas lesões que o impossibilitavam de jogar alguns jogos, Redondo era o melhor jogador desta equipa destacava-se pela forma como sabia construir, pela sua técnica e do ponto de vista defensivo também era muito forte e sem grandes surpresas (peca por tardia) teve a sua estreia de na seleção principal a 18 de junho de 1992, num amigável diante da Austrália.

Fernando Redondo, uno de los mejores '5' history of football

É neste período que começa a conquistar os principais títulos como profissional. Em 1992, conquista a Taça das Confederações fazendo parceria com Diego Simeone no meio-campo. A Argentina bateu a Arábia Saudita na final por 3-1. Redondo não marcou qualquer golo, mas voltou a conquistar os adeptos e, como seria de esperar, foi nomeado o melhor jogador do torneio. Logo no ano seguinte, em 1993, Redondo volta a conquistar um título de expressão pela sua seleção. Desta feita a Copa América ao bater o México na decisão por duas bolas a uma. Redondo conquistou o técnico, o restante elenco bem como todos os argentinos.

Mais tarde, na qualificação para o Mundial, Redondo marca pela primeira e única vez na sua carreira pela seleção argentina. Num jogo diante do Paraguai, com 2 expulsos para cada lado, Redondo com uma excelente tabelinha fazia o 2-1 na altura. Mais tarde Ramon Bello fazia o 3-1 e selava o encontro. 

Com a época de 93/94 terminada. E com Jorge Valdano que tinha treinado Redondo no Tenerife fazia agora parte da estrutura do Real Madrid. Aconselhou o presidente a garantir os préstimos do jogador para combater a hegemonia que o Barça vinha tendo. Acertou com os madrilenos antes do mundial. Com clube definido para a próxima temporada, o médio podia agora focar-se apenas no Mundial.

As expetativas para o mundial eram altas. Nos últimos dois mundiais, a Argentina ganhou um e perdeu na final noutro. Era a estreia de Redondo nestes palcos. Nos Estados Unidos da América. Sendo titular absoluto durante todo o Mundial, Redondo teve dois jogos de estreia muito bons com vitórias diante da Grécia e da Nigéria. Mas, a partir do terceiro jogo, tudo iria por água abaixo, isto porque Diego Maradona foi apanhado no controlo antidoping acusando positivo para efedrina, uma droga usada para emagrecer e com notável efeito estimulante. Maradona foi imediatamente expulso da prova e a Argentina ressentiu-se de imediato com todo o aparato que se gerou à volta desse caso. No jogo a seguir, diante da Bulgária, a albiceleste cai com estrondo e termina no terceiro lugar do grupo. Sendo o melhor terceiro classificado, a Argentina mesmo assim seguiu em frente na prova mas não por muito tempo porque seria eliminado nos oitavos de final frente à Roménia. 4 jogos de Redondo no Mundial e eliminação prematura. Certamente não era isto que esperava para a sua estreia numa competição deste tipo. Mas ainda haveriam mais oportunidades no futuro.

Redondo custou 3,5 milhões. A chegada a Madrid começou mal. Uma lesão inoportuna impediu-o de começar a temporada, mas logo que começou a jogar tornou-se dono e senhor do meio-campo. Durante seis épocas foi o farol que iluminou o jogo dos brancos, indiscutível para todos os treinadores.

A elegância personificada sobre o relvado. O médio argentino foi capaz de sozinho, segurar o meio-campo de uma equipa como a do Real Madrid. Dos seus pés partia o futebol de ataque que uma equipa que voltou a reinar na Europa. Seis troféus, entre eles duas Taças dos Campeões, são o espetacular balanço da passagem de um jogador muito querido pelo Santiago Bernabéu. Ali voltou-se a quebrar a hegemonia catalã (vinham de quatro títulos espanhóis seguidos) e início de domínio merengue tanto dentro como fora de portas. A La Liga foi reconquistada de imediato com mais quatro pontos que o segundo classificado, o Deportivo. A nível internacional, o Real Madrid ficou aquém do esperado. A disputar a extinta Taça UEFA, competição que deu lugar à Liga Europa, o clube espanhol caiu aos pés do Odense da Dinamarca ainda nos quartos-de-final. Uma eliminação precoce numa competição que foi ganha pelo Parma frente à rival Juventus.

Tribuna Expresso | Redondo recorda o calvário: “Punham-me na sala ...

Em 1995, seria novamente ano de Copa América, as boas exibições e sendo peça fundamental no Real Madrid, para muitos o maior clube do mundo, faziam prever a convocação do maestro. Porém, com a troca de treinadores na seleção argentina em 1994 devido à eliminação precoce do Mundial (Alfio Basile deu lugar a Dera Passarella). Passarella era conhecido pelas suas atitudes rígidas onde obrigava os seus jogadores a cortarem o cabelo. O cabelo de Fernando Redondo sempre foi uma das suas características. Redondo recusou cortar e viu o seu nome riscado dos convocados. Tal como ele, Caniggia também recusou cortar o cabelo e não viu o seu nome presente na lista. Batistuta, foi dos poucos que aceitou a decisão de Passarella, aparou o cabelo, e foi convocado para esta Copa América.

"Ele chamou-me e reunimo-nos no hotel Palace em Madrid. Pediu-me para cortar o cabelo e eu disse-lhe que não faria, E disse-me, me lembro das palavras, que a seleção estava acima dos homens e dos nomes, e iria ver se necessitava convocar-me. Quando isso saiu na imprensa, ele declarou que na realidade a questão do cabelo havia sido um tema secundário, que não me tinha convocado porque eu não queria jogar pela esquerda, uma mentira gigante. A partir daí, para mim, já não houve como voltar atrás. Sinceramente, não havia sentido no seu pedido e disse-lhe que não concordava. Depois, já não podes trabalhar com alguém que mente publicamente como ele fez. Foi doloroso para mim, mas a qualquer preço, não. São os valores que me incutiram meus pais"

Fernando Redondo a explicar porque não foi convocado para a seleção

A temporada seguinte as expectativas eram elevadas, com Raul Gonzalez a começar a despontar na linha avançada da equipa e com contratações de qualidade questionável como Esnáider, que mais tarde ingressaria no Porto e Rincon, o Real Madrid não foi além de um sexto lugar na Liga. Com isto, o clube via-se sem provas europeias no ano seguinte.

Após uma temporada 1995-96 dececionante para os merengues, a ver o vizinho Atlético de Madrid a fazer a dobradinha, o Real voltou às conquistas internas em 1996-97 mesmo concorrendo com a temporada mais fulminante da carreira de Ronaldo. Redondo era a classe e panorama num time que sabia vencer burocraticamente, mas com mais constância do que o rival catalão.

Na Temporada 1996/1997, sofreu uma pequena lesão no começo da temporada e parecia que não estava nos planos de Fábio Capello, mas sem ele a equipa não funcionava segundo os adeptos. Quando voltou a estar apto, começou a jogar e tornou-se indispensável à equipa e ao esquema tático do técnico italiano. Em outubro de 1997, o médio defensivo era inclusive o mais caro jogador argentino, com clausula de rescisão avaliada em 90 milhões de dólares em valores da época. Mesmo sendo uma época aquém do esperado em termos globais em termos nacionais: oitavos de final da Taça do Rei e 4 classificado no campeonato. Redondo conquistou, pela primeira vez, a orelhuda que tanto ansiava. Os madrilenos chegaram à final para defrontar a Juventus batendo a vecchia signora por uma bola a zero. Era o ano de 1998, ano de Mundial, e à chegada a esta final, Redondo já aparecia com cabelos aparados para fazer parte dos convocados para o Mundial. Mas ainda assim não foi possível. Passarella manteve-se intransigente e Redondo viu o mundial a partir de casa.  

A temporada de 1998/1999 foi marcada por algumas lesões que fizeram com que Redondo não conseguisse mostrar todo o seu potencial que havia mostrado em temporadas anteriores. Com 0 golos marcados nessa época, e com o baixo nível da equipa, viram novamente o Barcelona a ser campeão com mais 11 pontos de vantagem. Gus Hiddink seria despedido e chegaria Vicente Del Bosque, um técnico que fez Redondo jogar mais e melhor.

A temporada da virada do século foi a melhor época de sempre de Redondo, em sinergia e com confiança total por parte de Del Bosque, Redondo termina a época com uns impressionantes 53 jogos realizados faziam crer que o jogador estaria completamente recuperado de algumas mazelas que foi sofrendo nos joelhos ao longo da sua carreira. Apesar de não terem singrado dentro de portas, a nível internacional, o Real Madrid voltou a dar cartas com Redondo a conquistar a sua segunda Liga dos Campeões sendo, até  hoje, lembrado o seu jogo diante do Manchester United, o detentor do título, jogo a contar para os quartos-de-final onde Redondo simplesmente deu um show. O seu autopasse de calcanhar em Old Trafford, ficará para sempre marcado nos álbuns de melhores lances do futebol mundial.

Técnico, elegante, protegia a bola como poucos, tinha um exímio toque de bola, eficiente na marcação e na armação de jogadas, jogava com muita classe além de ter um grande espírito de liderança.

Após seis anos como referência do meio-campo do Real Madrid (entre 1994 e 2000), o jogador decidiu transferir-se para o AC Milan no ano 2000, numa transferência avaliada em cerca de 20 milhões de euros na moeda atual. E foi precisamente nessa altura que começaram os problemas, quando estava a realizar a pré-temporada no clube de Milão sofreu uma grave lesão no ligamento cruzado de um joelho.

"Fiz metade da pré-temporada e outra metade no AC Milan. Em Itália a carga de treinos era diferente, mais intensa. Por orgulho não disse nada, mas estava morto a nível muscular. E num jogo, num lance, senti o joelho a quebrar: rompi os ligamentos cruzados do joelho direito e estive dois anos sem jogar"

Explicação de Fernando Redondo para a lesão

Nesses dois anos, o internacional argentino foi sujeito a várias operações para tentar resolver o problema. A primeira operação foi realizada por um médico italiano responsável por várias intervenções a jogadores do Milan mas na verdade não correu bem. Durante a recuperação, o seu joelho inchava causando imensa dor. Essa dor impediu Redondo de jogar e, consultar por ele próprio, um médico de confiança renunciando ao salário enquanto se recuperava.

"Consultei vários especialistas, inclusivamente um francês que operou o Ronaldo. Mas optei por um belga. Fiquei na Bélgica alguns meses, fui submetido a novas técnicas e tratamentos três vezes por semana. Aplicaram-me uma técnica que se chamava Bier Block, que estava proibida em Itália. Atuava no sistema nervoso central para tirar a dor. Metiam-me na sala de operações, levantam-me a perna direita, tiravam-me o sangue da perna e injetavam-me medicamentos"

Terrível testamento dado por Redondo em 2019

As lesões fizeram de Fernando Redondo um dos piores negócios do ...

Depois de dois anos de ausência e de muito sacrífico, os médicos deram o OK para Redondo voltar aos treinos, voltar a sua melhor forma física para poder competir ao mais alto nível. Joga principalmente na Taça de Itália para ganhar maior ritmo de jogo e algumas presenças irregulares para o campeonato e para a Liga dos Campeões. Era um ano difícil para ele, mas mesmo lesionado e sem o brio de outros tempos e sem conseguir encantar os exigentes adeptos do Milan, Redondo volta a conquistar uma Liga dos Campeões.

Na temporada seguinte, as lesões continuaram a assolar o Príncipe que nunca mais voltou ao nível exibicional que se viu, principalmente, em Madrid. Com apenas jogos para Taça de Itália e um ou outro noutras competições, Redondo disse basta ao mundo do futebol por não conseguir aguentar mais as dores. Um adeus triste para um jogador que tinha tudo para singrar. E singrou. Mas poderia ter sido ainda mais.

Ainda assim, é quase impossível deixar de lembrar Fernando Redondo. Os torcedores blancos certamente, mas os rossoneri também. Eles dificilmente esquecerão daquele que foi um dos melhores médios dos últimos tempos, e que poderia ter dado ainda mais glórias a um Milan que conquistou quatro títulos durante os anos em que Redondo esteve por lá. Pela selecção argentina disputou menos partidas do que a sua qualidade exigiria (apenas 21 jogos com um golo marcado). Redondo é a prova viva que, nem sempre, o futebol é justo...

 

Poderás assistir a esta rúbrica de Fernando Redondo por áudio através do nosso Podcast chamado Futebol Artte que está disponível em diversas plataformas:

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