Antonio Cassano, o Fantantonio que não quis ser fantástico
O italiano Antonio Cassano é um exemplo vivo de que apenas talento não chega para um jogador se manter no topo. É necessário estabilidade, maturidade e ser rigoroso nos treinos. Infelizmente, todo o talento que Cassano tinha ficou ofuscado pelas peripécias que o avançado foi tendo ao longo da sua vasta carreira. Apesar de tudo, o Fantantonio - o Fantástico Antonio como ficou batizado pelos adeptos do Bari - jogou nos principais clubes de Milão e com passagens pelo Real Madrid. O que é certo é que deu sempre a entender que podia ter mostrado (bem) mais que aquilo que demonstrou.

Antonio Cassano nasceu no dia 12 de julho de 1982 em Bari crescendo num dos bairros mais rústicos da cidade, o Bari Vecchia e desde muito cedo sempre foi visto pelos mais próximos como um "menino rebelde". Abandonado pelo seu pai, foi apenas a mãe de Cassano que ficou encarregue da sua educação. Com o passar do tempo e já com um apetite para a bola, Cassano divertia-se a partir faróis dos carros e a conduzir uma moto sem carta, estas acções valeram-lhe algumas detenções.
Para completar o segundo parágrafo: A paixão pelo futebol desenvolveu-se nas ruas do seu bairro onde desde cedo foi desenvolvendo a grande capacidade técnica que possui e a rebeldia que o caracteriza.
Cassano começa a sua carreira futebolística ao serviço do clube da sua cidade, o Bari, em 1997, depois de ter sido rejeitado de todos os outros clubes de menor expressão da cidade. Um diamante em bruto era o que apelidavam os dirigentes do clube italiano na altura. Cassano destacou-se tanto ao serviço dos juvenis que aos 17 anos estreava-se na equipa principal do Bari, num jogo diante do Lecce, que a equipa de Cassano viria a perder por uma bola a zero. Mesmo com a derrota, Cassano destacou-se e no jogo seguinte mereceu a confiança do treinador para iniciar o jogo a titular e deu resultado: Cassano marcou o golo da vitória, muito perto do final do jogo, frente ao Inter. Um golo que fica na memória de todos os apaixonantes do futebol, com apenas 17 anos, Cassano revela uma frieza impressionante na hora de rematar à baliza (pode consultar o golo clicando AQUI). Entre o jovem de 17 anos e a baliza estavam nada mais, nada menos como o Campeão do Mundo Laurent Blanc e os internacionais italianos Panucci e Angelo Peruzzi.
As boas exibições e o facto de ser evoluído tecnicamente levaram os adeptos a chamarem Cassano de “Il Pibe de Bari” em clara alusão ao “Il Pibe de Oro”, alcunha de Diego Armando Maradona. Apesar da tenra idade, Cassano era o melhor jogador da equipa do Bari e sempre em evidência porém, na sua última época, não foi capaz de evitar a descida de divisão do clube. Esta descida, em 2001, precoce do Bari levou Cassano a deixar o seu primeiro clube e rumar à Roma, que tinha acabado de conquistar o scudetto, por 30 milhões de euros. A transferência fez dele o jovem mais caro do mundo.

A capital italiana fez bem em Cassano porque protagonizou juntamente com Francesco Totti uma das duplas mais temíveis do continente europeu. Na sua primeira época, conquistou a Supertaça Italiana e terminou a época com seis golos em trinta partidas realizadas e um prémio individual, o de melhor jogador da Serie A. Os anos seguintes de Roma ao peito foram complicados fora dos relvados, tudo porque Cassano era uma pessoa com um caráter forte, confiante e que “explodia” com facilidade. Existem vários episódios durante a sua estadia em Roma que são situações que mancharam um pouco a sua passagem pelo clube romano. Foram várias as vezes que entrou em conflito com os treinador, nomeadamente com Fabio Capello ao qual disse que «Capello era mais falso que as notas do Monopólio», o que levou o técnico a usar o termo “cassanata” para se dirigir ao atacante (que até entrou na lista de vocábulos da enciclopédia). O termo é usado para definir pessoas com atitudes explosivas e amalucadas, eternizadas por Cassano. Outro exemplo de “cassanata” é um clássico disputado entre Roma e Milan, Cassano após ser expulso na final da Taça de Itália, não contente com a decisão fez um gesto de chifres em direção ao árbitro Roberto Rosetti.
Polémicas à parte, Cassano teve uma passagem de quatro anos triunfal na capital. Foram 161 jogos e 52 golos que, apesar de não ter conquistado nenhum campeonato, formou uma dupla letal com Totti. Existia sintonia entre os dois, percebiam os movimentos de cada um, tendo mesmo Cassano sido considerado por Totti como o melhor companheiro de ataque que alguma vez teve. Mesmo com Totti existiram algumas problemas e brigas confirmados pelo próprio Cassano numa entrevista ao jornal espanhol Marca «Faltei com respeito a ele e deixamos de nos falar por dois anos».
Como cada vez maiores divergências e a recusa de Fantantonio em querer renovar com o clube, a Roma decidiu vender o jogador italiano por apenas 5,5 milhões de euros ao Real Madrid, em janeiro de 2006. Um prejuízo enorme porque havia custado 30 milhões há cinco anos atrás e estava, naquele momento, no auge da sua carreira. Os adeptos da Roma tinham de se confortar com a partida de um ídolo e os adeptos do Real Madrid estavam na expectativa para ver o que poderia trazer Cassano a um clube que contatava com Figo, David Beckham, Zidane, Raul, etc. Se iriam ver um Cassano trabalhador, parecido com aquele dos primeiros anos de Roma, ou um Cassano mais inconstante e fraco mentalmente. Infelizmente para Cassano e para a afición madridista, apenas tiveram a pior versão de Cassano. A sua estadia em Madrid até que começou pela positiva, uma vez que entrara no segundo tempo contra o Bétis, para a Taça do Rey e marcou o golo da vitória. No entanto, o que mais se viu foi um Cassano displicente, bem acima do peso, que chegou a ganhar o apelido de “El Gordito”. Em meia época ao serviço do Real Madrid em 17 jogos marcou apenas 2 golos e para pior a situação na época seguinte o Real Madrid contratou para treinador… Fabio Capello, treinador que tinha tido imensas zangas no seu período na Roma.
Em clara fora de forma e com vários quilos a mais, Cassano partiu para a nova época disposto a melhorar a sua atitude e até melhorou sua forma física para agradar ao treinador e, consequentemente, receber mais chances, mas não adiantou muita coisa. Cassano, na sua biografia, afirmou que apenas viveu em hotéis na capital espanhola e era viciado em sexo. «Convidava várias amigas praticamente todos os dias e ainda para mais o gerente do hotel era meu amigo e trazia-me sempre três a quatro croissants todas as manhãs. Comida e sexo era a combinação perfeita», afirmou Cassano. A gota de água foi quando uma emissora espanhola apanhou Cassano a imitar e fazendo pouco de Capello. Depois desse episódio, nunca mais jogou com a camisola do Real Madrid. Foi posto de lado e com guia de marcha do clube. Ao todo, em um ano e meio, o italiano jogou por 29 vezes e marcou 4 golos, não deixou saudade em Madrid.

Cassano toda uma decisão sábia e diz que o regresso a Itália seria o melhor para si e para voltar às boas exibições. O Real Madrid aceita emprestar o jogador à Sampdoria num empréstimo que engloba uma possível cláusula de compra caso Antonio Cassano tivesse boas prestações de apenas 3,3 milhões de euros. Na sua primeira temporada na turma da Samp, Cassano mostrou que havia colocado a cabeça no lugar e recuperado o seu futebol. Não à toa, a Sampdoria contratou-o em definitivo, em maio de 2008. Na época seguinte, formou uma dupla de ataque consistente com Giampaolo Pazzini que conduziu a Sampdoria à final da Taça, que perderam na marcação de grandes penalidades com Cassano a falhar um dos penalties.
Tudo corria de feição a Cassano nos anos de Sampdoria e arrancou a época de 2009/10 em grande estilo talvez também muito influenciado por ser ano de Campeonato do Mundo e Cassano queria estar presente, visto que tinha falado o Mundial de 2006, devido aos problemas no Real Madrid, Mundial esse onde a Itália sagrou-se campeã. Cassano estava motivado para fazer uma grande época. Esta temporada também retrata um belo momento, um reencontro com o ‘seu’ Bari, onde tudo começou… O atacante acabou mesmo por marcar e não comemorou o golo, arrancando aplausos do público afeto ao Bari. No final do campeonato, Cassano e a Sampdoria terminam no quatro lugar que dava acesso ao playoff da Liga dos Campeões (que viria a ser falhada visto que sucumbiram perante ao Werder Bremen).
Com o excelente resultado da Sampdoria no campeonato e com uma época no panorama individual bem conseguida por Cassano, havia muita pressão por parte dos adeptos e da imprensa local para convocar o jogador para o Mundial 2010 realizado na África do Sul. Marcello Lippi, então selecionador italiano na altura, não cedeu às pressões e Cassano viu o campeonato a partir de casa… e ainda bem. A Itália foi um fracasso nesse Mundial.
Muito da estabilidade fora dos relvados que Cassano conheceu ao serviço do clube de Génova muito se deve à sua mulher, Carolina Marcialis, conhecida jogadora de futebol aquático. Em altura de campeonato do Mundo, Cassano estava a casar-se com Carolina numa igreja cristã com um aparte: Cassano várias vezes admitiu ser ateu mas que não o impediu de casar pela igreja cristã cumprindo assim o desejo de Carolina. Juntos têm dois filhos: Cristopher e Lionel, este último é obviamente uma homenagem a Lionel Messi, jogador do Barcelona e pelo qual Cassano nutre um grande respeito.

Com toda a estabilidade pessoal e profissional, Cassano tinha tudo para arrancar o ano de 2010 da melhor maneira possível. Estava num clube que gostava e que os adeptos começaram-no a ver como um ídolo mas, logo em outubro de 2010, uma guerra acessa com o presidente do clube, Ricardo Garrone, levou com que fosse vendido logo quando o reabrisse o mercado (em janeiro). De acordo com um comunicado feito pelo presidente do clube dizia que «Antonio Cassano teve um comportamento grosseiramente ofensivo e desrespeitoso contra o presidente». A diretoria do clube, após esse incidente, pediu mesmo à Federação o encerramento do contrato do jogador, mas viu o pedido ser negado pelo tribunal. Nem mesmo os pedidos de desculpa de Cassano chegaram para demover o presidente. Estando encostado na Sampdoria, Cassano chamou atenção do colosso AC Milan. Em janeiro de 2011, o jogador mudou-se para Milão com um contrato válido por três temporadas. O valor da transferência? Uns meros 1,7 milhões de euros.
Os primeiros meses com a camisola do AC Milan vestida foram alucinantes, Cassano marcou contra dois de seus ex-clubes (Bari e Sampdoria); fez um golo e foi expulso num intervalo de 11 minutos no dérbi contra a Inter; foi campeão italiano pela primeira vez graças a um empate sem golos frente à Roma; viu a Sampdoria ser rebaixada à Serie B; em julho conquistou o seu segundo título pelo clube milanês, a Supertaça; e sofreu um AVC após uma partida frente à Roma, no Olímpico. Ele precisou passar por procedimento cirúrgico, em novembro de 2011, e só voltou aos relvados em abril do ano seguinte, cinco meses depois do infortúnio. Já recuperado do acidente vascular cerebral, que foi causado por um problema cardíaco, Cassano foi escolhido pelo técnico Cesare Prandelli para defender a Itália no Euro 2012 usando a camisola lendária número 10. Foi fulcral para a excelente caminhada até à final por parte dos italianos sucumbindo apenas diante da poderosíssima Espanha por 4-0. Cassano começou os seis jogos do Euro como titular. Foi a única vez na carreira em que Fantantonio teve presença regular na Nazionale.
Os dois anos de AC Milan, mesmo com as conquistadas, não foram tão boas para Cassano do ponto de vista individual. O “Fantástico Antonio” via com bons olhos a saída do clube milanês. O AC Milan estava interessado em Pazzini, do Inter de Milão, para ocupar a vaga de Cassano e juntou-se o útil ao agradável. Os grandes de Milão fizeram uma troca de jogadores, com o Inter a pagar ainda 5 milhões pela transferência do jogador. Aqui, soube-se que Cassano era adepto fanático do Inter, e talvez por isso, teve de imediato o apoio dos adeptos e sendo muito mais prestativo e combativo em campo do que aquilo que era noutros clubes. Cassano realizou uma temporada interessante com 10 golos marcados e 15 assistências, os últimos meses foram atribulados porque, mais uma vez, teve uma zanga séria com o treinador, Andrea Stramaccioni, que chegou mesmo a considerar o treinador «como a pior pessoa com que eu entrei em contato no mundo do futebol». Mais uma vez, teria guia de marcha no final da época. O clube que se seguia era o Parma pelo qual assinou um contrato de três anos.
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Em visível fraca forma física, Cassano fez um regime mais rigoroso e emagreceu 10 quilos. Terminou a época com quase 40 jogos nas pernas, 12 golos e 8 assistências fazendo com que o Parma terminasse no honroso sexto lugar. Chegou ainda aos 100 golos na Serie A, marcando o golo da vitória diante do Bologna. Devido aos graves problemas económicos no Parma, a vaga da Liga Europa foi perdida e Cassano rescinde o contrato com o clube devido a pagamentos em atraso: «Estava cansado e decidi deixar o clube. Perdi 4 milhões de euros em salários aqui, mas o dinheiro não é o problema. Não fiz isso por mim, pois há pessoas que ganham muito menos do que eu e não receberam um euro em sete meses».
Estando num clube de menor expressão esperava-se que o seu período na squadra azzura tivesse terminado mas Cesaro Prandelli via em Cassano uma espécie de trunfo que poderia usar e acabou por convoca-lo para o Mundial de 2014 no Brasil. Não participou da vitória na estreia, contra a Inglaterra, e foi utilizado no segundo tempo dos duelos contra Costa Rica e Uruguai. O desempenho foi abaixo do esperado, assim como o de todos os italianos que entraram em campo no Brasil. Depois do Mundial, o atacante não voltou a ser chamado. De novembro de 2003 a junho de 2014, o Cassano realizou 39 jogos e marcou por 10 vezes com a camisola do seu país.
Sendo um jogador livre, Cassano arranja um novo clube (para a época 2015/16 com 34 anos) que já conhecida muito bem: a Sampdoria. Il Pibe di Bari regressava assim a um clube onde tinha tido os seus melhores momentos enquanto futebolista e com uma grande expectativa por parte dos adeptos, de modo que a venda das camisolas aumentou de forma exponencial. Obviamente, já não era o mesmo Cassano da primeira passagem pelo clube de Génova, mais velho, com menos capacidade de aceleração, o atacante pouco produziu e não teve um efeito positivo na equipa. O presidente na temporada seguinte não contava com o jogador mas, pelo que Cassano representava para o clube e massa associativa, propôs a Cassano um contrato de dirigente abandonando os relvados. Mas estamos a falar de Cassano, o italiano recusou a proposta. Embora estivesse excluído do grupo principal, Cassano não quis saber de deixar o clube: foi treinar com a equipa Primavera. Porém, em janeiro de 2017, rescindiu com a Samp em acordo mútuo e ficou seis meses sem clube. Anunciou que deixaria o futebol mas voltou atrás na decisão porque apareceu o Hellas Verona. Assinou com o clube a 10 julho, mas dias manifestou o desejo de deixar o clube. Assim, rompeu com o clube poucos dias depois. Cassano fica fora de cena e volta a anunciar que a sua carreira como futebolista terminou… E voltou novamente atrás na decisão porque em outubro desse mesmo ano aceitou uma proposta para treinar com a Virtus Entella, da Serie C.
No equivalente ao terceiro escalão português, Cassano queria mostrar que ainda não estaria acabado para o futebol. Treinou durante alguns dias, deu uma conferência de imprensa e disputou um jogo amigável pelo clube de modo a ter um maior entrosamento e forma física. Pouco tempo depois pensou melhor e voltou a decisão de terminar a carreira. E desta foi mesmo de vez. Na despedida, o excêntrico jogador, disse uma das coisas mais acertadas da sua carreira «para jogar bola é necessário paixão e talento, mas, acima de tudo, é preciso de determinação, e eu, neste momento, tenho outras prioridades».

Demos prioridade a enaltecer a carreira de Cassano a contar algumas peripécias que teve pelo meio mas existem muitas mais: disse que se tivesse empenhado mais no futebol poderia ter estado ao mesmo nível que Messi; Chegou atirar uma camisola na direção de árbitro fazendo diversas ameaças; admitiu que teve confusões com todos os treinadores (mesmo em Bari), a Spalletti, que foi seu treinador na Roma, disse que quem mandava na Roma era ele e não o treinador; a polêmica com jogadores homossexuais, Cassano, durante o Euro 2012, disse mesmo que esperava não ter nenhum homossexual no balneário da seleção…
Mesmo com todos estes problemas, o irreverente avançado será sempre lembrado: tanto pelos momentos dentro dos relvados como fora dele. O que é certo é que o futebol perdeu um dos últimos bad boys do futebol. Cassano jogou 417 jogos em toda a sua carreira de clubes marcou 115 golos e realizou 95 assistências. Simplesmente Antonio Cassano, o Fantantonio que não quis ser fantástico.