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Terceiro Tempo

"Football, bloody hell!" – Sir Alex Ferguson (1999, após a conquista da Champions League)

Durante grande parte do século XX, o número 9 foi o símbolo máximo do futebol. Era o jogador que todos queriam ter e o que todos temiam enfrentar. Um avançado centro era, acima de tudo, um finalizador — alguém que vivia dentro da grande área, indiferente ao caos tático à sua volta.

Nos anos 70 e 80, nomes como Gerd Müller, Paolo Rossi e Gary Lineker transformaram o conceito de eficácia em arte.
O lema era simples: “dois toques são demais”. Um para controlar, outro para finalizar.

Entrados nos anos 90, o futebol viu florescer a idade de ouro do nove. Gabriel Batistuta, Alan Shearer, Ronaldo Fenómeno, George Weah, Filippo Inzaghi, Patrick Kluivert, Christian Vieri — cada um à sua maneira, um símbolo do instinto matador. Os sistemas táticos da altura (4-4-2 e 3-5-2) eram desenhados para servir o homem que estava no centro. O jogo terminava com ele — e, quase sempre, por causa dele.

A Revolução: Do Nove ao Falso Nove

Com a viragem do milénio, o futebol começou a mudar de pele. A velocidade aumentou, o espaço diminuiu e o pressing tornou-se uma religião. Os treinadores deixaram de ver o nove como o fim da jogada e começaram a querer que ele participasse na sua construção.

O ponto de viragem pode ser traçado até ao início dos anos 2000. Luciano Spalletti, então treinador da Roma, decidiu abdicar de um ponta-de-lança fixo e colocar Francesco Totti como falso nove. A ideia era simples, mas revolucionária: atrair os defesas para fora da área e criar espaços para os médios penetrarem.

Poucos anos depois, Pep Guardiola elevou o conceito a outro nível com Lionel Messi no Barcelona. Dez transformado em nove. Nove transformado em tudo. O sucesso foi tal que muitos seguiram o modelo: o nove deixou de ser uma referência estática e passou a ser um elemento tático fluido.

Entre 2010 e 2020, os grandes avançados europeus — Benzema, Firmino, Suárez, Kane — já não viviam apenas de golos, mas de combinações, pressões e assistências. O futebol tornava-se mais coletivo, mas também mais técnico e cerebral.

 

Os Últimos da Espécie

Apesar da mudança, alguns resistiram. Os “nueves à moda antiga” continuaram a marcar — adaptando-se, mas sem trair a essência. Robert Lewandowski, com o seu sentido posicional quase científico, é talvez o exemplo mais perfeito do avançado moderno que mantém alma clássica. Entre 2014 e 2023, marcou mais de 400 golos oficiais, uma média superior a 40 por época. Não precisa de muitos toques: um movimento, um remate, um golo.

Erling Haaland representa o extremo dessa linhagem. Com apenas 24 anos, soma mais de 200 golos como profissional. A sua taxa de conversão ronda os 32%, muito acima da média europeia (que ronda os 14%). Haaland é potência pura, sem excessos estéticos — uma máquina de finalização criada para um futebol que já quase não tem espaço para especialistas.

Outros nomes mantêm o legado:
Olivier Giroud, sobrevivente de uma era em que os avançados ainda sabiam jogar de costas;
Romelu Lukaku, força e colocação;
Victor Osimhen, a versão africana do nove moderno, veloz e impiedoso.

Mas todos eles têm algo em comum: são exceções num mundo de híbridos.

Dados e Tática: o Declínio em Números

Os números confirmam o que o adepto sente.
Um estudo da UEFA de 2023 mostrou que:

- Nos anos 90, 74% dos golos em competições europeias eram marcados por avançados-centro.

- Em 2023, esse número caiu para 38%.

- A média de toques dentro da área por jogo de um “nove” diminuiu 27% desde 2005.

- Em contrapartida, os médios-ofensivos e alas representam agora quase 50% dos golos em ligas de topo.

Os sistemas táticos (4-3-3, 4-2-3-1, 3-4-3) priorizam a mobilidade. As linhas são curtas, o pressing é coletivo, e a área é ocupada por vários jogadores em rotação. O espaço para o nove clássico — aquele que esperava pelo cruzamento — desapareceu.

 

O Romantismo que Resta

Mesmo assim, o futebol tem memória. Cada vez que vemos Haaland a atacar o primeiro poste ou Giroud a ganhar uma bola aérea, lembramo-nos de tempos em que o golo era mais instinto do que cálculo. Há uma nostalgia que atravessa gerações — a do “matador”, do “homem do último toque”.

Porque, apesar de toda a ciência e análise, o futebol continua a depender de um momento de coragem. De um jogador que acredita que pode resolver tudo com um simples remate.

E talvez seja por isso que o nove clássico, mesmo em extinção, continua a ser o mais admirado. Ele não é o mais tático, nem o mais bonito. Mas é o que faz a rede balançar — e é isso que, no fim, faz o futebol valer a pena.

 

A Lenda Eterna do Número 9

O número 9 não desapareceu — apenas mudou de forma. O futebol moderno pode pedir avançados multifuncionais, mas o jogo nunca deixará de precisar de alguém que saiba onde a bola vai cair. Do pontapé de Müller em 1974 ao golo de Haaland em 2025, a essência é a mesma: instinto e frieza.

Enquanto houver um golo por marcar e uma bola perdida na área, haverá um número 9 pronto para lhe dar sentido. E talvez, quando o próximo grande “matador” surgir, o mundo se lembre de que o futebol começou — e sempre acabará — com o som da rede a estremecer.

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