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Terceiro Tempo

"Football, bloody hell!" – Sir Alex Ferguson (1999, após a conquista da Champions League)

Terceiro Tempo

"Football, bloody hell!" – Sir Alex Ferguson (1999, após a conquista da Champions League)

Dom | 28.09.25

Roberto Dinamite, o Goleador que nunca se apagou

No futebol brasileiro, onde craques nascem em cada esquina e brilham como estrelas cadentes, poucos conseguiram deixar uma marca tão profunda, tão permanente e tão ligada a um só clube como Roberto Dinamite. O nome é explosivo — e não por acaso. Dinamite não foi apenas um apelido; foi uma identidade que refletia na perfeição o impacto que este avançado teve em campo. Carlos Roberto de Oliveira, nascido em 1954, tornou-se um símbolo eterno do Vasco da Gama e, por extensão, do futebol brasileiro.

Dinamite não era daqueles jogadores que se impunham pelo marketing ou pelo espetáculo fora das quatro linhas. Era um artilheiro silencioso, mas letal. Com uma elegância rara na grande área, combinava inteligência posicional com um remate poderoso, capaz de desconcertar qualquer defesa. A sua estreia como profissional foi, curiosamente, o prenúncio do que viria a ser a sua carreira: marcou um golaço de fora da área contra o Internacional, no Maracanã, e a imprensa cravou-lhe de imediato o nome que o acompanharia para sempre — Dinamite.

A sua ligação ao Vasco é de uma intensidade quase romântica. Em tempos de transferências relâmpago e lealdades voláteis, Roberto foi — com raras exceções — homem de um só clube. Vestiu a camisola cruzmaltina em mais de 1.100 partidas, marcando quase 710 golos, números absolutamente impressionantes para qualquer época. No Campeonato Brasileiro, foram 190 golos marcados, o que o coloca até hoje como o maior artilheiro da história do Brasileirão — um feito notável, tendo em conta a quantidade de génios que pisaram os relvados do país. Além disso, é o maior artilheiro do estádio de São Januário, com 184 golos.

Para o Vasco, Roberto foi mais do que um ídolo: foi pilar, esperança e símbolo. Viveu títulos, como o Brasileirão de 1974, mas também atravessou fases difíceis, mantendo-se firme, como um capitão que não abandona o navio. Representou a seleção brasileira com orgulho — embora nunca tenha tido o protagonismo que, talvez injustamente, outros com menos currículo acabaram por receber. Participou no Mundial de 1978 e esteve também no de 1982, uma das equipas mais talentosas da história do futebol brasileiro, embora sem título para comprovar.

Fora das quatro linhas, Dinamite manteve-se próximo do Vasco, inclusive na política desportiva, tendo sido presidente do clube em momentos conturbados. A sua postura foi sempre a de um homem íntegro, que colocava o clube acima de vaidades pessoais.

Em janeiro de 2023, o Brasil despediu-se fisicamente de Roberto Dinamite. O seu falecimento foi sentido como uma perda nacional. No entanto, o seu nome permanece vivo — gravado nos livros, nos murais de São Januário, nas memórias dos adeptos e, sobretudo, nas estatísticas que eternizam o que a memória pode falhar. Ser o maior goleador da história do Brasileirão não é apenas um recorde: é um legado.

Num país onde o talento floresce com abundância, Roberto Dinamite foi — e é — uma árvore firme no meio do bosque. Não foi um cometa, foi uma estrela de brilho constante. E mesmo que os tempos mudem e novas promessas surjam, haverá sempre, nas conversas de bar, nas transmissões nostálgicas ou nos olhos marejados de um vascaíno, alguém que lembrará com orgulho: “esse sim, era um goleador de verdade. Esse era o Dinamite”.

Dom | 07.09.25

Kampen om Oslo: A Batalha pelo Coração da Capital Norueguesa

No coração de Oslo, entre o eco dos aplausos e o clamor das claques, vive uma rivalidade que ultrapassa os 90 minutos de jogo. Lyn e Vålerenga, dois dos clubes mais históricos da Noruega, protagonizam a chamada "Kampen om Oslo" – a Batalha de Oslo. Mais do que futebol, é um confronto entre estilos de vida, origens sociais e tradições distintas que moldaram a identidade desportiva da capital norueguesa.

Valerenga x LynLyn - Vålerenga Fotball 1-2 (0-1) @Elving Hauger

O Lyn Fotball, fundado em 1896, é um dos clubes mais antigos da Noruega. Durante décadas, foi uma potência do futebol nacional, com títulos de campeão em 1964 e 1968, além de oito Taças da Noruega. Com raízes bem assentes nos bairros mais abastados do oeste de Oslo, como Majorstuen e Frogner, Lyn foi sempre associado a uma elite urbana, discreta, educada e tradicionalista. As suas cores – vermelho e branco – reflectem uma certa pureza e nobreza no imaginário colectivo, e o seu nome, que significa “relâmpago”, representa talvez o brilho antigo de um clube que iluminou o futebol norueguês nas suas décadas de ouro.

Do outro lado está o Vålerenga, fundado em 1913, nascido entre os bairros operários do leste da cidade. Ao contrário da nobreza do Lyn, Vålerenga cresceu como o clube do povo. Os seus adeptos vêm das ruas, dos bares, das fábricas. A sua claque, os Klanen, é considerada uma das mais fervorosas da Escandinávia, e não há jogo em casa que não seja uma festa de cor, som e paixão. Vestem o azul e vermelho, cores fortes, quase agressivas, que representam bem a alma vibrante e combativa do clube.

Se o Lyn representa o passado, o Vålerenga simboliza a resistência e o presente. Enquanto o primeiro caiu em desgraça em 2010, vítima de uma crise financeira que o empurrou para os escalões inferiores, o segundo tem conseguido manter-se, com altos e baixos, como um dos nomes grandes do futebol norueguês, com cinco campeonatos nacionais e quatro Taças da Noruega, a mais recente conquistada em 2008.

Os palcos também dizem muito sobre o que os separa. O Lyn joga actualmente no Bislett Stadion, com capacidade para cerca de 15.400 espectadores – um estádio com história, partilhado com o atletismo, situado no coração burguês da cidade. Já o Vålerenga orgulha-se da sua Intility Arena, moderna, funcional e vibrante, construída em 2017 para cerca de 16.500 adeptos, bem no meio do seu território: o leste popular de Oslo.

Os fanáticos adeptos do Lyn @NKR

Os confrontos entre ambos são recheados de simbolismo e, embora nos últimos anos tenham sido esporádicos, continuam a incendiar paixões. Até 2024, os dois clubes defrontaram-se em 78 jogos oficiais. O Vålerenga leva alguma vantagem, com 32 vitórias, contra 24 do Lyn e 22 empates. Ainda assim, cada reencontro parece reacender uma velha ferida na cidade. O último embate, em setembro de 2023, foi uma vitória apertada do Vålerenga por 2-1, num jogo da Taça da Noruega. O penúltimo, em maio de 2022, foi mais desequilibrado: 3-0 para o clube do povo, num amigável que, ainda assim, soube a provocação.

Apesar de estarem actualmente em divisões diferentes, o regresso do Lyn aos palcos maiores parece uma questão de tempo. E com isso, Oslo prepara-se para reacender uma rivalidade que é muito mais do que futebol. É uma batalha por território emocional, uma disputa entre dois mundos que coexistem na mesma cidade, mas que raramente se cruzam com ternura.

A Kampen om Oslo não se joga só com bola e chuteiras. Joga-se com memória, com identidade e com uma paixão que atravessa gerações. E enquanto houver relvado e coração, Oslo continuará dividida – entre o vermelho burguês de ontem e o azul popular de hoje.